Notavelmente, os currículos publicados pelos candidatos já superam as vagas disponíveis, indicando um excesso de oferta de mão-de-obra, possivelmente motivado por demissões globais e pela atração de indivíduos mais jovens.
Um dos aspetos mais alarmantes da análise reside no perfil dos candidatos, que apresentam uma idade média de apenas 24 anos, com uma forte representação de adolescentes. Esta juventude sugere que o desemprego ou a procura por ganhos rápidos está a desviar talentos tecnológicos para atividades criminosas logo no início das suas carreiras. A maioria dos anúncios de emprego na Dark Web está explicitamente associada a cibercrime ou a outras atividades ilícitas, contrastando com a minoria que corresponde a trabalhos legítimos.
A caraterística dominante deste mercado é a elevada adaptabilidade e a falta de ética profissional por parte dos candidatos: 69% dos indivíduos não especifica uma área de interesse, manifestando disponibilidade para assumir qualquer tarefa remunerada, desde programação a fraudes ou esquemas cibercriminosos complexos. Tal flexibilidade permite que os operadores maliciosos preencham rapidamente as suas necessidades de recursos humanos, valorizando competências comprovadas em detrimento de qualificações formais.
A procura por talentos na Dark Web, refletida nas vagas publicadas pelos "empregadores", espelha a sofisticação do ecossistema criminoso. As funções de TI mais solicitadas incluem programadores (17% das vagas), essenciais para criar ferramentas de ataque; testers de intrusão (12%), dedicados à identificação de vulnerabilidades; e branqueadores de capitais (11%), cruciais para a lavagem de fundos ilícitos. Outras funções especializadas, como carders (roubo de dados de pagamento) e traffers (direcionamento de vítimas para sites maliciosos), também compõem esta economia paralela.
O estudo da Kaspersky revelou ainda um claro padrão de diferenciação por género nas especializações. As mulheres tendem a procurar funções interpessoais, como apoio ao cliente e assistência técnica (que podem ser usadas em esquemas de engenharia social), enquanto os homens procuram predominantemente funções técnicas e financeiras ilícitas, incluindo engenharia inversa, programação e funções de 'mula de dinheiro'.
Em termos de compensação, as expectativas salariais são elevadas, destacando-se os engenheiros de engenharia inversa, com remunerações médias superiores a 5.000 dólares mensais. No entanto, em muitas vagas diretamente ligadas ao cibercrime, a remuneração é baseada numa percentagem da receita total da equipa. Os branqueadores de capitais auferem em média 20%, enquanto carders e traffers recebem 30% e 50%, respetivamente, ilustrando a alta valorização de competências de alto impacto e difícil substituição dentro da infraestrutura criminosa.